Saúde

Suplementação na terceira idade faz bem?

por Madu
25 de agosto de 2020

A suplementação nutricional deve ser acompanhada por médicos e nutricionistas para que seu efeito seja percebido e positivo, além de evitar riscos do consumo de vitaminas e nutrientes em excesso

Foto: Tania Kolinko – Shutterstock

Prática comum nos últimos anos, o consumo de suplementação nutricional é realizado muitas vezes de forma indiscriminada e sem o acompanhamento profissional adequado, o que pode ocasionar sérios problemas de saúde. Para entender os efeitos da suplementação na terceira idade, a geriatra Priscilla Fiorelli* detalha seus benefícios, indicações e contraindicações.

Com a chegada da terceira idade, a pessoa deixa de produzir ou processar componentes benéficos para saúde?

Existem diversas alterações que ocorrem com o envelhecimento na parte nutricional. Não só no processamento dos alimentos, mas também pela própria mudança de composição corporal e metabolismo.

Muitas pessoas acham que só vão sofrer o efeito do envelhecimento na terceira idade. Mas o que sabemos é que o pico da nossa funcionalidade ocorre entre 20-30 anos. Com essa idade, temos o máximo de massa óssea e muscular, e uma ótima performance física.

A partir desse momento, as alterações do envelhecimento normal, ou chamado de senescência, começam a ficar gradualmente mais evidentes. Há redução da água dentro das células, diminui a massa muscular, há perda de massa óssea e aumento de massa gordurosa.

Na parte de processamento dos alimentos, ocorrem também muitas alterações: há diminuição do esvaziamento do estômago, diminuição da acidez gástrica, alteração da flora intestinal (bactérias normais do intestino), diminuição das vilosidades do intestino (fica com menor área de absorção).

Isso tudo contribui para diminuir a capacidade de digestão de proteína, e absorção de ferro, vitamina B 12, cálcio e vitamina D. Somam-se ainda todas as outras alterações no fígado, hormônios, e outros órgãos e sistemas do corpo que alteram o metabolismo. Além disso, o uso de algumas medicações pode diminuir a absorção de alimentos, como o uso de omeprazol ou semelhantes por longos períodos.

Os próprios hábitos ao longo da vida influenciam muito, incluindo a alimentação, atividade física, sono e estresse. Por exemplo, dietas com poucas frutas e hortaliças têm maior tendência a levar ao estresse oxidativo e à inflamação. Tudo isso pode afetar a imunidade e a regulação corporal, e aumentar o risco de doenças, como osteoporose, doenças infecciosas, autoimunes, câncer e doenças funcionais.

Outros fatores afetam também a própria ingestão de alimentos, como a diminuição do olfato e paladar, alteração na dentição, dificuldade de engolir, e doenças como alterações de memória, depressão e outros.

Então, é possível observar como é complexa a nutrição no idoso. De fato, quase um terço dos idosos têm desnutrição e falta de nutrientes. Mas isso não é normal, e deve ser investigado. As causas são, em geral, por alteração no metabolismo e absorção, falta de ingestão, perda excessiva ou demanda alta. E a vulnerabilidade socioeconômica pode piorar ainda mais esse cenário.

Quais as principais indicações para a prescrição de suplementos para idosos?

Quando pensamos em suplemento, existem diversos tipos: vitaminas, minerais, proteína, calorias.

Não há uma indicação de suplementação para todos os idosos. O que existe é a necessidade de orientar a comer bem, fazer atividade física e ter um estilo de vida saudável. Alimentação ainda é o melhor remédio. E não é só conversa, os alimentos têm inúmeras propriedades que nunca vamos conseguir reproduzir em suplementos.

A substituição de alimentos de baixa qualidade (poucos nutrientes e que causam inflamação) por alimentação saudável já pode ser uma solução, e nem precisar suplementar. Isso é, diminuir açúcar refinado, alimentos processados e artificiais, e diminuir bebidas alcoólicas. E aumentar ingestão de frutas, legumes, verduras, além de proteínas, carboidratos e gorduras de qualidade.

Mas existem casos em que só mudança alimentar não é suficiente: quando o idoso tiver perdendo peso, com alguma doença grave ou que demande muito do metabolismo (como câncer, úlcera de pressão, alguns tipos de cirurgia ou infecção), ou se for detectado exame laboratorial com falta de algum nutriente. Alguns tipos de dietas restritivas, como veganas ou vegetarianas, podem precisar de reposição também. Os suplementos devem ser usados sempre com orientação de médico ou nutricionista.

O que chamo atenção aqui é para o fato de que os polivitamínicos populares nem sempre são adequados para suplementar. Eles oferecem dose baixa de muitos componentes, e os casos de deficiência detectada em exames ou doenças precisam ser individualizados quanto à necessidade de cada nutriente.

Por isso, o geriatra e gerontólogo tem especialização em lidar com toda a complexidade do envelhecimento, e fazer uma avaliação ampla do idoso. Essa avaliação inclui rotina, funcionalidade, peso, força, avaliação da boca, deglutição e outros.

Um dos tipos mais comuns de necessidade de suplementação na terceira idade é a vitamina D. Ela é obtida principalmente pelo sol, e por isso não conseguimos aporte necessário de outras formas. É necessário suplementar se houver diminuição no exame ou condições como osteoporose. Nesses casos, quando a ingestão não é suficiente, muitas vezes é preciso suplementar cálcio também, mas evitamos devido aos efeitos colaterais.

A vitamina B12 também costuma estar entre as vitaminas que mais precisa suplementar. A sua deficiência pode causar anemia, alterações neurológicas e de memória. Casos de anemia por falta de ferro também são frequentes e, muitas vezes, é necessária a reposição endovenosa. E, é claro, toda deficiência de vitamina, mineral ou perda de peso deve ser investigada, pois não é normal do envelhecimento e pode apontar alguma fragilidade ou sinal de doença.

Além de vitaminas e minerais, alguns idosos precisam de aporte extra de proteína e calorias. Nesses casos, são geralmente idosos frágeis, que podem estar perdendo peso, massa muscular, e força. Para isso, os suplementos sênior de proteínas podem ser indicados. Como o nome diz, são suplementos, e não substituem a alimentação. Por isso, a orientação é usar nos intervalos entre as refeições (como lanches).

Sempre que um suplemento for indicado, é necessário monitorar o peso e estado nutricional, além da doença de base. E incentivar, quando possível, o retorno do aporte dos nutrientes pela dieta, podendo incorporar às refeições alimentos ricos em proteínas (ovos, leite, leguminosas, castanhas, nozes) e gorduras (azeite, abacate, castanhas, nozes), além de frutas e hortaliças. O segredo é procurar colocar no prato alimentos mais naturais e coloridos.

Existem contraindicações para suplementação na terceira idade?

Não só há casos em que a suplementação não é indicada, como pode estar contraindicada e ter efeitos colaterais, principalmente para os rins e fígado. Um perigo é que não há previsão legal para a categoria “suplementos alimentares”, ou seja, não existe regulamentação específica para esses produtos.

Mais da metade dos brasileiros consomem algum tipo de suplemento, e boa parte das vezes sem indicação por profissional. Os mais consumidos são ômega-3, vitamina D, cálcio, proteínas (whey protein), multivitamínicos, entre outros.

A toxicidade de doses altas de vitaminas em geral é baixa, mas as vitaminas liposolúveis (A, D, E, K) têm maior risco. Vitamina A pode ser teratogênica em mulheres grávidas, isso é, pode causar malformação no feto. A famosa vitamina D, em excesso, pode causar o aumento do nível de cálcio no sangue, e afetar o rim e coração.

O betacaroteno e a vitamina E, apesar do efeito antioxidante, podem ter efeito contrário, e aumentar risco de alguns tipos de câncer. E a vitamina K pode interferir em algumas medicações (principalmente anticoagulantes) e aumentar risco de sangramento.

Excesso de minerais também podem ter efeitos adversos. O uso excessivo de magnésio e de zinco pode levar a náuseas, dor de cabeça, arritmias, entre outros. Alguns suplementos podem propiciar a formação de cálculos renais, como cálcio.

O uso de suplementos sem outras alterações no estilo de vida, como a prática de atividade física, pode também não ter resultados, principalmente no caso de suplementos proteicos. A proteína ingerida pode não ser incorporada adequadamente aos músculos e sair em excesso na urina, além de causar diarreia. E pessoas com insuficiência renal têm um limite de ingestão de proteínas, pela sobrecarga que pode acontecer no rim. Por isso, também devem ter cautela.

Suplementos sênior para aporte energético devem ser usados com cuidado por quem tem doenças como diabetes, pois podem descontrolar a glicemia e o peso.

Além disso, é necessário atentar que os suplementos podem gerar alergia ou intolerância em determinadas pessoas.

A pessoa pode consumir esses suplementos sem acompanhamento médico? Quais riscos ela corre nesse caso?

Sim, o uso de suplementação na terceira idade  de forma indiscriminada ou sem seguimento profissional pode ser prejudicial. Vale lembrar que não é necessário fazer exames de sangue de rotina para avaliar níveis de nutrientes para todos os idosos, pois a reposição não é indicada em todos os casos. Para aqueles a que for indicada a suplementação, deve haver monitoramento para avaliar se está com dose insuficiente ou em excesso.

Se não for feito o seguimento profissional, a pessoa pode usar dose inadequada, usar suplementos contraindicados para o caso, ou combinar substâncias que podem interagir de forma negativa. Os efeitos, como visto, podem ser desde sintomas leves de diarreia, a mas graves, como arritmia ou diminuição de função de algum órgão, como fígado ou rim.

Por isso, seguimento multidisciplinar, incluindo principalmente médico e nutricionista, é fundamental para idosos com necessidade de suplementação nutricional.

*Dra. Priscilla Fiorelli (CRM 156.328) é geriatra com Abordagem Integrativa – Coordenadora da pós-graduação em Bases de Saúde Integrativa e Bem-Estar do Einstein – Fez Residência médica em Geriatria pelo Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo – Especialista em Acupuntura pelo Colégio Médico Brasileiro de Acupuntura – Self & Professionals Coaching pelo Instituto Brasileiro de Coaching

Sobre a autora:

Madu

MADU é uma iniciativa do projeto Rede Bem Estar, realizado pelo Conselho Estadual do Idoso, em parceria com o Grupo Tellus, a Brasilprev e a Liga Solidária. Foi criada para potencializar a relação entre pessoas mais velhas, seus familiares e amigos além de compartilhar conteúdos sobre envelhecimento e velhice.

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