Cuidado | Entretenimento

Programas de TV: quais escolher?

por Beltrina Côrte
10 de março de 2020

Programas sobre violência se tornaram comuns entre idosos. Como o sensacionalismo da TV pode prejudicar a socialização do idoso? Ao mesmo tempo, quais os tipos de programas que podem ser interessantes e enriquecedores?

Foto: Erik Mclean – Unsplash

Em 2003, a produção do Datena, da TV Bandeirantes, me pede indicação de profissionais da área da Gerontologia para participar de um programa no qual seria abordado o tema do envelhecimento, pegando carona com o Estatuto do Idoso recém- aprovado pelo Congresso. Eu, como comunicadora, sempre tive repulsa a programas que realçam a violência. Mas como a produtora do Datena era uma colega de doutorado, indico três pessoas do mestrado em Gerontologia Social da PUC-SP para colaborar com a atração. Julgamos que um programa popular pudesse construir uma melhor imagem da velhice, e resistir talvez fosse preconceito.

Torcemos para dar certo, mas maior foi nossa decepção. Utilizaram de forma sensacionalista e tendenciosa depoimentos e fatos envolvendo situações de abandono e violência contra idosos. Ou seja, preocuparam-se apenas com os números do Ibope. Esse tipo de programa não contribui para mudar a visão negativa que existe sobre a velhice. Pelo contrário, reforça uma cultura que encara de forma preconceituosa o processo de envelhecimento. Explorar a miséria humana faz dela mais uma mercadoria que tem como único objetivo manter uma audiência cativada pelo medo.

O que faz tanta gente, especialmente pessoas idosas, gostarem desse tipo de programa? Mais do que buscar resposta para essa pergunta, é importante falar que programas desse tipo prejudicam demais a sociabilização das pessoas idosas. Minha mãe, quando viva, não perdia um programa desse tipo. Era fã de Gil Gomes e do Aqui Agora (SBT). Um horror. Vivia com pavor a tudo, medo de sair e preocupação com os filhos na rua, especialmente à noite. A angústia fazia parte do seu cotidiano, e ela desenvolveu um quadro depressivo. 

Será que com o passar da idade as pessoas tendem a assistir mais programas que retratam a violência?

Acredito que esse tipo de programa tenha maior audiência entre a geração atual de pessoas mais velhas em relação à geração idosa mais jovem. Ou seja, a questão está mais na diferença de gerações. Tomo como exemplo eu e várias amigas e amigos que já passaram dos 60 anos, filhas e filhos dessa outra geração. Como pessoas idosas mais jovens, a maioria abomina programas centrados na violência gratuita e prefere programas de entretenimento com alguma preocupação no debate social. 

Mulheres Apaixonadas“, de Manoel Carlos, levada ao ar pela TV Globo na mesma época do Datena, que hoje apresenta Brasil Urgente na Band, mostrava por outro ângulo como idosos são maltratados mesmo sob o teto de famílias de classe média, e assim contribuiu com a aprovação do Estatuto do Idoso (que garante os direitos das pessoas idosas e prevê leis de proteção às mesmas).

O Estatuto estava há cinco anos parado no Congresso Nacional e só voltou a “andar” depois da exibição da história de Flora e Leopoldo, idosos vítimas de violência doméstica exercida por uma neta, Dóris. O tema gerou comoção nacional e o Estatuto do Idoso chegou a ser citado na novela. 

Oswaldo Louzada (1912-2008) e Carmen Silva (1916-2008) interpretavam os pais de Marcos Caruso que, por sua vez, interpretava o papel de um filho que decide cuidar de seus pais até o fim da vida e tem de enfrentar a incompreensão de uma filha adolescente que vê os avós como um insuportável estorvo dentro de casa. Nos dias que se seguem ao capítulo da novela que cita a existência de um projeto de lei visando a proteção dos idosos, o Senado recebe 25 mil ligações para desengavetar o projeto. O autor da novela, sabedor de que esse tipo de programa é um canal importante para discutir problemas sociais, coloca o idoso na pauta do dia ao chamar a atenção para a violência doméstica que continua a ocorrer, mas hoje é punida pela Lei. 

E mais, Manoel Carlos, nessa mesma novela, cria uma cena na qual o casal idoso vai a um posto de saúde tomar a vacina da gripe, impulsionando assim a Campanha Nacional de Vacinação do Idoso.

Então, o que escolher? 

Programas que incitam o ódio, a violência, que utilizam recursos sensacionalistas para captar a atenção da audiência, que apresentam uma faceta de mundo extremamente perigoso habitado por pessoas de mau caráter e nunca discute as causas da violência? Programas que nos deixam extremamente angustiadas e depressivas? 

Ou programas que possam nos entreter e educar, ser interessantes e nos fazer pensar, mudar de atitude em relação ao nosso futuro, à nossa velhice? 

A decisão é sua!

Sobre a autora:

Beltrina Côrte

Beltrina Côrte é jornalista, doutora em Ciências da Comunicação e docente da PUC-SP. CEO do Portal do Envelhecimento e Espaço Longeviver.

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