Cuidado

Ser ou não ser avô?

por Beltrina Côrte
3 de março de 2020

Ser avó ou avô hoje em dia significa ser provedor, participar da educação e dedicar muito mais tempo da sua vida a esse papel.

Foto: Paolo Bendandi – Unsplash

Você já reparou como a sociedade chama todos aqueles com aparência mais velha de avô ou avó, como se o destino de toda pessoa idosa fosse ocupar esse papel? Ou ainda, achar que há uma única receita para ser avô ou avó?

Como posso ser avô, se não tive avô? Como posso ser avô, se eu não fui neto? O que é ser avô?”, já perguntava Thaís Araujo de O. P. de Carvalho, no artigo Avosidades, em julho de 2019, no qual descreve sentimentos opostos, de satisfação e repulsa, e de obrigação por exercer tal papel, identificados em diversos depoimentos.

Você sabe responder?

Provavelmente não, até porque há diversas respostas, assim como diversas velhices. Muitos podem responder aquilo que está na imaginação, reforçado inclusive por propagandas como a “família margarina” da TV (que só existe na telinha, mas que na vida real mostra quadro é bem diferente, não é?).

Quantas pessoas você conhece que têm netos, mas que não cuidam deles, talvez até começando por você? Ou aqueles que passam situações difíceis na justiça por terem que lidar com netos adolescentes que infringiram a lei?

Há avós e avôs que se tornam cuidadores de seus netos por necessidade econômica ou por obrigação. Aprenderam que esse seria seu papel na velhice. Mas estamos vivendo uma mudança na sociedade brasileira, em que temos cada vez mais pessoas idosas convivendo juntas. Muitas vezes, em uma família, é possível encontrar 3, 4, 5 e até 6 gerações convivendo em uma mesma residência. Com essas mudanças de papéis familiares, os avós muitas vezes se tornam os provedores de seus netos, com responsabilidades tanto por sua educação como pelo seu sustento, e acabam dedicando seu tempo para os outros e não para si.

Os avós, sejam consanguíneos ou de coração, são as novas figuras familiares da contemporaneidade.

Representam um envelhecimento diferente do de outrora, com papéis ativos na composição familiar. Ou exercitam empatia com um mundo novo, em que netos e avós são aprendizes do brincar e do rir.

Ou simplesmente assumem sua autonomia e preferem seguir sua vida, como no conto A menina, o cofrinho e a vovó, de Cora Coralina:

A velha tinha filhos. Tinha netos e bisnetos, e todos moravam em cidades diferentes, bonitas e movimentadas, progrediam e criavam suas famílias com amor. A velha morava longe e sozinha. Não por nada. “Queria viver simples, sua vida, sua maneira, ao seu gosto e por isso se fez longe, na terra onde nasceu e onde tinha suas raízes fortes e vivas”. (2009, s/p)

Referências

Coralina, C. A menina, o cofrinho e a vovó. Global: São Paulo, 2009.

Sobre a autora:

Beltrina Côrte

Beltrina Côrte é jornalista, doutora em Ciências da Comunicação e docente da PUC-SP. CEO do Portal do Envelhecimento e Espaço Longeviver.

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