Cuidado

Rita Lee e o impacto do isolamento forçado no dia a dia

por Beltrina Côrte
5 de maio de 2020

Isolamento na terceira idade é muito comum. Conheça alguns impactos na rotina, exercício, distância dos amigos.

Foto: Ashley Light – Unsplash

A pandemia do novo coronavírus provoca a imposição de restrições de movimento e isolamento físico em diversos países, cuja técnica mais adotada até o momento tem sido o isolamento social. Cerca de três bilhões de pessoas passaram ou passam por essa experiência inusitada em pleno século 21. Qual tem sido o impacto disso para pessoas idosas de diferentes culturas? Para os orientais, cuja sociedade é mais introspectiva, a condição de isolamento e o hábito de usar máscara é mais fácil de assimilar do que na cultura ocidental, como na Europa, e mais ainda no Brasil, por sermos considerados um povo extrovertido e relacional. 

No Brasil, país onde as “Interações físicas, como beijos, abraços e apertos de mão são importantes para formar e fortalecer relacionamentos, a disseminação do vírus restringe esses comportamentos”, comenta o psicólogo social Junko Yamada, do Departamento de Ciência Comportamental da Universidade de Hokkaido. Mas surgem outras possibilidades, como um olhar para dentro de si, especialmente para quem tem mais de 60 anos.

“Ando fuçando minha biblioteca, escolhendo livros que já li e esqueci. Arrumo gavetas, jogo fora um monte de traquitanas inúteis que acumulei ao longo dos anos. Fico namorando e limpando minha coleção de cristais phantom e meus pesos de papel. Lavo as mãos duzentas vezes por dia cantando ‘Parabéns a você’, e estou viciada em passar álcool gel, hábitos modernos […]. O que me deixa mais triste é não poder receber as visitas dos meus filhos e netos, mas nada que um Facetime não resolva provisoriamente”, comenta Rita Lee à imprensa nacional. A cantora há oito anos vive ‘enfurnada’ e paga para não sair de casa. 

Por incrível que pareça, descobre-se que há muitas pessoas acima de 60 anos como Rita Lee, que percebem a existência de coisas interessantes para se fazer, e o impacto do isolamento social como uma oportunidade de olhar para dentro de si, arrumar a casa interna. Afinal, protegidos em suas casas, aproveitam este momento inédito para descobrir recursos criativos que possibilitem uma adaptação serena e se forcem para ajudar a quem precisa.

Outras pessoas, no entanto, ao enfrentarem essa situação atípica, se veem tomadas de ansiedade, depressão, solidão, monotonia, tédio, e até pensamentos de pânico ou atitudes exageradamente fóbicas. Tais sintomas compõem o contexto do impacto do confinamento para a sociedade como um todo, pois o que está em risco é a vida e a segurança, mesmo diante de um futuro incerto. 

Para outras pessoas idosas, que continuam a trabalhar no confinamento, sejam profissionais liberais, empreendedores ou funcionários em vários níveis, o home office, ou trabalho remoto, dá a sensação de que existe uma carga maior de atividades a serem realizada por meio dos dispositivos eletrônicos que demandam 24 horas por dia de segunda a segunda. Solidão, tédio e tempo para olhar para dentro passam longe ante o acúmulo de trabalho, somado com as demais atividades da casa.

Há ainda um outro grupo de pessoas idosas que, impossibilitadas de trabalhar remotamente, arrisca-se diariamente no ir e vir, muitas vezes sendo até mal vistas por outros que, sem saberem, julgam e mandam que fiquem em casa. Para essas não há tempo, e nem podem parar para pensar, pois o que está em jogo é a sobrevivência própria e da família. Para essas pessoas a rotina de trabalho não muda, mas outros hábitos são incorporados, como o uso de máscaras. Há ainda, dentro desse grupo, um subgrupo de pessoas idosas que, não podendo atuar remotamente, são dispensadas de seus trabalhos e ficam em casa, com tédio, e não veem a hora de retornar à vida de sempre.

Independentemente do grupo, todos tiveram como desafio adaptar suas rotinas, ou melhor, criar uma nova. “Nada melhor do que ter a companhia de bichos, que oferecem serenidade e alegria: cuidar e brincar com animais faz o tempo passar de maneira mais divertida. Arranjar uma mudinha de planta e acompanhar o crescimento dela é emocionante […]. Espalho telas e tintas sobre uma mesa e me arrisco a pintar alguma coisa. Mexer com cores dá uma alegria na cabeça, enquanto escuto músicas que me fazem feliz. Tenho feito tricô, fabrico mantas para os bichos usarem quando o inverno chegar”, diz Rita Lee.

Outras arrumam armários de cozinha, de quartos, jogam meias sem par fora, costuram… Vão para a cozinha experimentar novas receitas. Fazem faxina e ensinam os demais membros a limpar banheiro, passar pano na casa, aspirador… Reservam um tempo para aprender exercícios de yoga, pilates e jogos de memória ofertados gratuitamente nas redes sociais. Outras ainda se dedicam a novas aprendizagens, fazendo cursos de idiomas e temas adiados, se dando conta de tanta coisa boa que pode ser feita mesmo estando em casa. Outras ainda começaram a falar mais com amigas e amigos via aplicativos, trocam receitas, comentam o noticiário, compartilham medos e angústias ante um futuro que, costumam dizer “só a Deus pertence”.

Como estamos vivendo o presente, compete então a nós fazermos nossa parte e encontrar um sentido para este momento inédito de nossa história. Rita Lee já encontrou o seu e compartilha aqui: “Minha impressão é a de que nesse confinamento forçado que a humanidade está sendo obrigada a passar, há um propósito Divino. Um teste para que aqueles que sobreviverem a essa guerra invisível se conscientizem de que o planeta Terra está realmente sendo destruído pelos donos do poder de cada país. E, que se não modificarem radicalmente seus comportamentos em todas as áreas, aí, sim, será a Terceira Guerra derradeira. Saúde física, mental, psicológica e espiritual para todos!”.

Sobre a autora:

Beltrina Côrte

Beltrina Côrte é jornalista, doutora em Ciências da Comunicação e docente da PUC-SP. CEO do Portal do Envelhecimento e Espaço Longeviver.

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