Cuidado

O que fazer perante as limitações do corpo?

por Beltrina Côrte
30 de abril de 2020

É possível perceber que a pessoa está se colocando em perigo? Quais os sinais que poderiam indicar mudanças no corpo. Quanto intereferir nos limites?

Foto: Elien Dumon – Unsplash

A experiência do envelhecer, viver sessenta anos ou mais, é nova. Nossa sociedade foi construída com base na expectativa de vida do século XIX. Nossas instituições, o casamento, o Estado, as empresas e o sistema previdenciário, como conhecemos, é de uma época na qual apenas 3% das pessoas ultrapassavam a barreira dos 65 anos. É como uma roupa que se tornou curta. Não estamos adaptados ainda a essa nova realidade. Talvez por isso é que desperdiçamos um bem inestimável, o maior recurso que conquistamos: tempo de vida. Quem diz isso é o jornalista e filósofo alemão Frank Schirrmacher em entrevista para a Veja em 2004, ano de lançamento do seu best-seller “A revolução dos idosos”.

Desde a década de 1990, Schirrmacher escreve sobre os dilemas que envolvem uma sociedade que vive o fenômeno da longevidade, que impõe adaptações a uma nova realidade, tanto individuais quanto coletivas. Ele teria muito mais a acrescentar se ainda estivesse conosco. Faleceu em 2014, sem experimentar a experiência do envelhecer, vítima de acidente fatal aos 54 anos. 

No livro “A revolução dos idosos”, Schirrmacher alerta os mais jovens ao escrever “na verdade vocês ainda não sabem, mas vocês são um deles”, referindo-se à grande probabilidade de todos se tornarem velhos no futuro, convidando assim os leitores mais jovens a encarar o amanhã e, consequentemente, a condição de ser velho, justamente porque vivemos hoje numa sociedade que tenta ignorar o envelhecimento. Inclusive os próprios velhos, que tentam continuar usando uma roupa que ficou muito curta, metáfora que pedimos emprestado para dizer que, apesar das mudanças físicas e psicossociais pelas quais nossos corpos passam a cada ano, continuamos a agir ou querer agir como se tivéssemos 20/30 anos, desrespeitando as limitações, especialmente físicas, que vão se incorporando aos nossos corpos com o passar do tempo. 

A respeito disso, o escritor García Márquez, no livro O Amor nos Tempos do Cólera, escreve:

“Levantava-se com os primeiros galos, e a essa hora começava a tomar seus remédios secretos: brometo de potássio para levantar o ânimo, salicilatos para as dores dos ossos em tempo de chuva, gotas de cravagem de centeio para as vertigens, beladona para o bom dormir. Tomava alguma coisa a cada hora, sempre às escondidas, porque em sua longa vida de médico e mestre foi sempre contrário a receitar paliativos para a velhice: achava mais fácil suportar as dores alheias que as próprias”. 

Todas as culturas conheceram a juventude, mas poucas conheceram a velhice. Se antes a experiência de envelhecer era de uma minoria, esse acontecimento singular da civilização se transformou em regra. E aqueles que hoje habitam essa etapa da vida revelam que envelhecer é um processo de mudanças, principalmente físicas, em que o corpo muda, perde agilidade, o movimento fica mais lento, mas mesmo assim, as pessoas não se dão conta e fazem de tudo para ignorar as limitações que o tempo imprime ao corpo. 

Schirrmacher, na entrevista citada à revista Veja, diz que no trabalho, por exemplo, “os idosos podem ser mais lentos ou menos vigorosos, mas compensam com a maior experiência e a confiança no próprio trabalho. O que se deve fazer é empregá-los em funções adaptadas às suas qualidades. Não há estudo que prove que eles são piores no trabalho que os outros. Isso vale apenas para a minoria dos casos”. É claro que encontraremos pessoas que aos 60 anos se percebem com limitações entre saúde-doença para continuar no trabalho; outros, com 90 anos, ainda são ativos. A generalização é falsa. “O problema é que, quando você convence alguém de que ele não consegue mais trabalhar, ele realmente não vai mais conseguir. É o que se faz hoje em dia com as pessoas mais velhas”, diz.

Schirrmacher diz ainda na entrevista que “o corpo envelhece, mas a personalidade se recusa a acompanhar a mudança. É comum vermos pessoas de 25 a 40 anos que falam ou se vestem como crianças”. Segundo ele, “faz parte do fenômeno da negação do envelhecimento que existe hoje”. A fase da velhice requer adaptação e aceitação das especificidades e pode ser vivida saudavelmente. Reconhecer que envelhecer é um processo que inicia na infância e que as vivências do passado repercutem hoje é importante para conviver com um corpo que não é mais o mesmo, o que muitas vezes é sentido especialmente na realização de tarefas diárias, quando há menor coordenação motora, às vezes dores e até desconforto. A maioria das quedas ainda ocorre dentro de casa, porque a pessoa idosa insiste em subir numa cadeira ao invés de escada para pegar objetos nas prateleiras mais altas. As limitações que impedem o funcionamento do corpo não são aceitas, e aí está o grande desafio que é imposto aos mais velhos, ou seja, adaptarem-se às novas condições de seus corpos. Aliás, é o que o corpo faz o tempo todo ao longo da vida, o que nos falta é estar atento para tais necessidades. 

Diminuir o compasso da vida nessas horas é fundamental, até para apreciar o entorno, caminhar mais lentamente e, se for preciso, usar bengala para ter mais equilíbrio e segurança, não subir em cadeiras, compartilhar experiências, expressar frustrações e falar sobre as ansiedades e as angústias que as limitações nos impõem, dores nas pernas, braços e coluna, por exemplo. Encontrar beleza em um corpo em transformação. O que não se pode é querer continuar a usar a mesma calça ou saia de quando tínhamos 15 anos, pois certamente ela não nos serve mais.

Referências

GARCÍA MÁRQUEZ, G. O Amor nos Tempos do Cólera. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1987, p. 321.

SCHELP, D. A Ditadura dos Jovens: entrevista com Frank Schirrmacher.  Revista Veja, semanário; Ed. 1.867; Ano 37; N. 33; Seção: páginas amarelas;1; São Paulo, SP;18.08.2004; páginas 11 a 15.

Sobre a autora:

Beltrina Côrte

Beltrina Côrte é jornalista, doutora em Ciências da Comunicação e docente da PUC-SP. CEO do Portal do Envelhecimento e Espaço Longeviver.

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