Cuidado

Nossa nova luta: “ser velho”

por Denise Mazzaferro
12 de março de 2020

O preconceito contra as falsas minorias também recai sobre a população idosa. Envelhecer é viver, envelhecemos diariamente e é importante valorizar esse processo

Foto: Diego Cervo – Shutterstock

Por mais estranho que possa parecer, encontrei inspiração para escrever este texto nos movimentos pelo fim da violência contra a mulher, vendo as bandeiras levantadas por mulheres de todas as idades, pedindo respeito, igualdade de direitos e dignidade.

Onde começa toda essa barbárie que dá direito ao outro para cometer atos de violência física e moral?

Simone de Beauvoir nasceu em Paris, em 1908, e faleceu em 1986. Foi escritora, intelectual, filósofa existencialista, ativista política, feminista e teórica social francesa. Teve influência significativa tanto no existencialismo feminista quanto na teoria feminista. Em 1970, já com 62 anos, Simone escreveu o livro “A Velhice”, e nele discutiu profundamente sobre essa fase da vida, chegando a comparar a velhice ao movimento feminista pelo qual ela tanto lutou.

O que ela sentia era que, ao entrar na velhice, mesmo após ter travado lutas pelos direitos das mulheres, e comemorado várias conquistas, enfrentava tudo novamente – a falta de lugar na sociedade, de direitos, de papel.

Hoje nos orgulhamos de todas essas conquistas, lutamos pela igualdade de direitos, de salários, de posição, mas principalmente nos orgulhamos de ser MULHERES.

E o velho? Existe algum orgulho em envelhecer? E afinal, o que é envelhecer?

Envelhecer é viver. Não existe uma definição mais simples do que essa. Envelhecemos desde o dia em que fomos gerados, com o passar das horas, dos dias, das semanas, dos meses, dos anos. Mas por que, apesar de ser um processo natural, tememos tanto a velhice e o ser VELHO?

Simone de Beauvoir dizia: “É normal, uma vez que em nós é o outro que é velho, que a revelação de nossa identidade venha dos outros. Não consentimos nisso de boa vontade. Uma pessoa fica sempre sobressaltada quando a chamam de velha pela primeira vez”.

Trabalhando com pessoas idosas, eis algumas das frases que escuto:

“Envelhecer sem ficar velho!”

“Sou velho, mas tenho minha alma jovem”.

“Tenho 70 anos, mas não me considero velho, sou ainda um menino.”

“Fiz 90 anos e ainda estou esperando envelhecer.”

É muito difícil envelhecer numa sociedade que valoriza a produção, o instantâneo, o futuro em detrimento ao passado, o amanhã ao invés do hoje, o jovem, o rápido, a potência, a beleza, a virilidade. Todos são valores que nós mesmos construímos e, de certa forma, reafirmamos ao negarmos a velhice que inexoravelmente está ligada à finitude, à fragilidade, à flacidez, à lentidão, às rugas, ao cabelo branco, ao esquecimento.

Hoje, ainda nem começamos a nossa luta pela velhice digna. Continuamos envelhecendo e negando a velhice, as rugas, as marcas, a fragilidade e acima de tudo nossa finitude.

Precisamos aprender com esses movimentos que se iniciaram tanto tempo atrás, lutando pelas “minorias” – mulheres, negros, homossexuais – que nós, velhos e futuros velhos, éramos minoria, mas seremos a maioria.

Seremos 30% da população brasileira em 2050, e não há porque não iniciamos hoje nossa luta por aquilo que, cada um de nós sonha, que é envelhecer nos desfazendo de todos os preconceitos e aceitando a nossa humanidade e imensa diversidade. Somos únicos, mas seremos velhos, SIM.

Como diria Arnaldo Antunes: “A coisa mais moderna que existe nessa vida é envelhecer”.

Sobre a autora:

Denise Mazzaferro

Denise Mazzaferro é mestre em gerontologia, sócia da Angatu IDH, membra do Conselho do OLHE (Observatório da Longevidade Humana e Envelhecimento) e autora do livro “Longevidade – Os desafios e as oportunidades de se reinventar”.

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