Aprendizado | Cuidado

Alterações de memória e cérebro saudável, previna-se!

por Beltrina Côrte
4 de abril de 2020

É possível perceber que a pessoa está apresentando sinais de alteração de memória?

Foto: Anna Auza – Unsplash

“Teu irmão está igual à tua mãe. Como assim, pai? Ele põe comida para esquentar no forninho e esquece; abre o chuveiro e fica lá, sem saber o que fazer; coloca a roupa suja na sala ao invés de levá-la para a área de serviço; quando reclamo, vejo que não lembra de nada, igualzinho tua mãe fazia”. Essa era a fala de meu pai toda vez que o visitava no litoral paulista, onde mora. De tanto ouvir a mesma queixa, tomei providências, agendei uma consulta com um psiquiatra na capital por conta do histórico da minha mãe.

Na época, meu irmão, 48 anos, recém-separado, voltara a morar com meu pai, que vivia só desde que minha mãe falecera por consequência da Doença de Alzheimer. Meu irmão estava em tratamento médico, estresse. Mas minha escuta estrangeira (não vivia o cotidiano deles) permitiu estar atenta aos detalhes da queixa de meu pai, que tinha sido cuidador de minha mãe por mais de seis anos. Vejam bem, a queixa não era de meu irmão, que não se lembrava de nada que tinha feito, mas de meu pai. Isso é importante, pois não estamos falando aqui de um simples esquecimento que depois a pessoa lembra e reclama que sua memória está falhando. Meu pai é que percebia que esses esquecimentos eram mais do que simples falhas de memória, tendo como base os esquecimentos da minha mãe.

Prestar atenção a pequenos detalhes de alterações de comportamento é importante para identificar o mais rápido possível e providenciar os cuidados necessários à saúde da família. Sim, porque as alterações de memória afetam a família como um todo, e muitas vezes por mais de uma década. E falo isso por experiência própria. Meu irmão morreu aos 62 anos, também por consequência da Doença de Alzheimer. 

Perceber esquecimentos quanto a compromissos, recordar datas de aniversários, repetir as mesmas questões diversas vezes e apresentar desorientação espacial, por exemplo, podem ser indícios de problemas mais sérios, e a busca por um diagnóstico se faz necessária.

Esses esquecimentos percebidos pelos familiares, e não por quem esquece, não são normais da idade. Indicam, sim, que alguma doença pode estar se instalando. Importante ficar atento.

Nosso cérebro é uma grande incógnita e pouco ou nada se sabe sobre as alterações que acometem a memória, especialmente quando se tem mais de 60 anos. Mas as alterações também podem acometer pessoas de outras faixas etárias e serem negligenciadas, inclusive pelos profissionais da saúde, como no caso do meu irmão. 

Hoje, a única certeza que se tem na vida é de que é grande a possibilidade de virmos a desenvolver algum tipo de demência. Aliás, esse é um dos maiores temores da população mais velha do mundo inteiro, como bem colocou Laura Carstensen, psicóloga e diretora do Centro de Longevidade da Universidade de Stanford, nos EUA, em um artigo escrito para o jornal The Washington Post recentemente.

Entre as demências, a mais falada é a Doença de Alzheimer, uma doença neurodegenerativa e progressiva, que provoca alterações nas funções cognitivas importantes como memória, atenção, funções executivas, linguagem, percepção, entre outras. Funções que permitem interagir com o mundo. É o tipo de demência que mais acomete a população, em torno de 60 a 90%.

As alterações de memória muitas vezes podem indicar a fase pré-demência ou, como os especialistas designam, prodrômica, que consiste na fase anterior à demência, bem no início, quando se percebem os primeiros sintomas que podem indicar a doença, mas ainda não é possível diagnosticá-la. É uma fase com alterações cognitivas e de memória, leves, mas perceptíveis. Nessa fase, a função cognitiva mais comprometida é a memória episódica, aquela responsável por guardar datas que foram importantes. Se tivéssemos prestado mais atenção a meu irmão, teríamos observado as lacunas de sua memória em relação a datas familiares.

Os especialistas estimam que antes de a pessoa ser diagnosticada com a Doença de Alzheimer, por pelo menos 15 anos, no mínimo, a doença já esteja agindo no cérebro da pessoa. Ou seja, as lesões que vão determinar o comprometimento cognitivo começam a ocorrer muito antes dos primeiros sintomas. Anos, até décadas. O que isso quer dizer? Que as pequenas alterações de memória, não as que percebemos, mas as que os outros percebem em nós, podem ser um indício que podemos estar desenvolvendo alguma demência, mas que nem nós nem os médicos que nos acompanham sabem ainda precisar.

O que fazer ante as alterações de memória?

Estar atento aos entes queridos é o primeiro passo a ser seguido. Aliás, pesquisadores apostam na possibilidade de ações que modifiquem o curso natural da doença com intervenções não farmacológicas, até porque não existem medicamentos nessa fase. E um dos fatores de proteção muito recomendado pelos especialistas é o convívio social. Aliás, estudos apontam que a socialização é fator protetivo para a Doença de Alzheimer. Por isso, estar em grupos para troca de experiências é considerado super benéfico, tanto para as pessoas que já começam a apresentar alterações de memória quanto, para seus cuidadores informais.

Além disso, médicos recomendam atividades intelectuais, sendo uma delas a aprendizagem contínua, isso é, aprender novas coisas a todo momento, pois a educação modifica estruturalmente o cérebro e cria novas sinapses que ajudarão a mantê-lo saudável. A estimulação cognitiva tem sido considerada um grande fator protetivo por criar reservas cognitivas que irão proteger nosso cérebro, realizar a manutenção das suas funções e preservá-lo, a fim de postergar o avanço de uma doença.

A adequação alimentar também é importante, e os especialistas têm sugerido a dieta do mediterrâneo como a mais equilibrada por ter alta ingestão de frutas, verduras, legumes, cereais, peixes, vinho e oleaginosas, considerada protetiva para as alterações de memória. E, claro, a atividade física também é de suma importância, por auxiliar na preservação dos neurônios, mantendo assim o cérebro saudável.

Sobre a autora:

Beltrina Côrte

Beltrina Côrte é jornalista, doutora em Ciências da Comunicação e docente da PUC-SP. CEO do Portal do Envelhecimento e Espaço Longeviver.

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