Cuidado

Ageísmo, idadismo, etarismo, idosismo… o que significam?

por Beltrina Côrte
13 de abril de 2020

Preconceito com público idoso. O que é? Como ocorre? Quais as consequências?

Foto: Brian Fegter – Unsplash

Imagine você, que tem mais de 60 anos, indo para uma reunião de trabalho marcada às 9 horas da manhã na região da Avenida Paulista, em São Paulo. Para chegar lá, você opta pelo metrô, lotado, pois é horário de pico. Entra praticamente empurrada pela multidão, e ouve uma jovem comentar: “não sei o que essa velha faz aqui a esta hora“. Aconteceu comigo recentemente, e o que essa frase evidencia é o preconceito contra pessoas idosas, também conhecido como ageísmo, idadismo, etarismo e idosismo.

O termo ageísmo, do inglês ageism, foi criado por um estudioso pioneiro no tema, o psiquiatra americano Robert Butler, em 1969, com base na palavra age (idade em inglês), para descrever o preconceito que a sociedade tem contra pessoas mais velhas. Seus estudos observam que o estereótipo desencadeia práticas discriminatórias e favorece o isolamento das pessoas idosas. A tradução do termo ageism para o português passou a ser ageísmo para alguns. Para outros, idadismo, etarismo e idosismo. Palavras que podem ser entendidas de maneira geral como ações diretas ou indiretas em que alguém é excluído, considerado diferente, restrito, ignorado ou tratado como se não existisse, devido à sua idade; como no caso da jovem do metrô, que no fundo estava expondo uma forma não mais velada de dizer: volte para sua casa, pois aqui não há mais lugar para os velhos, você está atrapalhando.

É claro que existem outras formas de discriminação por idade, digamos mais “gentis”, mais invisíveis, consentidas pelas pessoas idosas, mas que são tão nocivas quanto a frase ouvida no metrô, tipo: “nossa, você tem 61 anos, não parece!”. Nessa fala, está embutida a imagem de alguém que com essa idade deveria estar acabada. Quer estereótipo maior que esse que todos os dias escuto de jovens, adultos e outros velhos, como eu? Ou ainda a expressão que acabo ouvindo de mim mesma, em silêncio, ao parar ante uma vitrine por ter gostado de uma roupa: “você não acha que já passou da idade para usar isto?”. Pois é, acabamos incorporando o preconceito etário e culpando a idade por tudo, e é aí que mora um dos maiores perigos.

Todos nós, inclusive as pessoas idosas, temos preconceito em relação à idade. Como? Vamos lá, se você já passou dos 60 anos e alguém te chamar de velha, como você encara? Ou responde que “velha é sua vovozinha” ou xinga, por achar uma ofensa. Pois é, temos vergonha de sermos velhos, vergonha de assumir nossa velhice. O dia em que nós, velhas e velhos, não tivermos mais vergonha de nossa velhice, pelo contrário, orgulho, mudaremos certamente esse cenário ante as gerações mais jovens. Mas se continuarmos negando a velhice que nos habita e culparmos a idade por tudo, esse cenário preconceituoso só tende a ser reproduzido, infelizmente.

“A discriminação aos velhos é o resultado dos valores típicos de uma sociedade de consumo e de mercantilização das relações sociais. O exagerado enaltecimento do jovem, do novo e do descartável, além do descrédito sobre o saber adquirido com a experiência da vida, são as inevitáveis consequências desses valores”, escreve o psicólogo José Carlos Ferrigno, já em 2002, no artigo O estigma da velhice: Uma Análise do Preconceito aos Velhos à Luz das Ideias de Erving Goffman.

Trata-se de um preconceito que afeta mais de 60% da população mundial, e que está associado ao desrespeito, ao tratamento injusto, às suposições falsas sobre alguém, e ao sentimento de invisibilidade, afetando negativamente a confiança, a situação financeira, a saúde e a qualidade de vida de uma pessoa. 

Como lutar contra essa discriminação?

Há muito tempo a ativista norte-americana Ashton Applewhite, autora do livro This Chair Rocks: A Manifesto Against Ageism, vem chamando a atenção para o preconceito. Para ela não é a passagem do tempo que torna tão difícil envelhecer, mas sim o preconceito de idade que nos coloca contra nosso futuro, e um contra o outro. Em uma apresentação chamada Vamos acabar com o preconceito de idade, Ashton conta que o preconceito alimenta-se da negação, da relutância em reconhecer que nos tornaremos essa pessoa mais velha… E declara que “é constrangedor ser chamado de mais velho até deixarmos de ter vergonha disso, e não é saudável passar a vida temendo nosso futuro. O quanto antes sairmos desta roda de negação da idade, melhor estaremos”.

Que tal começarmos a assumir nossa velhice e a nos orgulhar dela ao invés de a negarmos? Eu já estou fazendo a minha parte. No ano passado, ao completar 60 anos, criei um blog chamado Orgulho de ser velha, no qual declarei ter orgulho de ser o que sou. E também participei de uma campanha municipal chamada Orgulho Prateado 2019 para conscientizar e combater preconceito contra pessoas idosas.

Tudo isso para dizer que estou fazendo a minha parte, e você?

Sobre a autora:

Beltrina Côrte

Beltrina Côrte é jornalista, doutora em Ciências da Comunicação e docente da PUC-SP. CEO do Portal do Envelhecimento e Espaço Longeviver.

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