Cidadania | Cuidado

Violência contra a pessoa idosa

por Daniela Santilli
31 de julho de 2020

Como identificar a violência contra a pessoa idosa e quais são os pontos de atenção para denunciar

Foto: Alessandro Pintus – Shutterstock

O tema violência contra idosos é difícil até mesmo para escrever. A violência, de uma forma geral, é delicada e cheia de detalhes que precisam ser levados em conta. É um assunto bastante divulgado, apesar de não ser o suficiente para resolver tantos casos que parecem crescer a cada dia. Ao escrever esta matéria, “violência contra a pessoa idosa”, pude notar porque a grande maioria delas são praticamente iguais: falam sobre as leis e como fazer uma denúncia. As leis existem, mas nem sempre resolvem. O problema é bem mais complexo. Entenda alguns dos motivos:

Cada vez que uma denúncia anônima é feita, um oficial de justiça é designado a entregar o B.O. (boletim de ocorrência) na casa do idoso para que a denúncia seja efetivada. O idoso em questão deve confirmar que sofre algum tipo de violência. Em muitos casos, o idoso nega sofrer qualquer tipo de violência, pois o agressor pode morar com ele em casos de parentes ou, ainda, o agressor pode estar na casa no momento em que o oficial de justiça chegar. Isso significa, para o idoso, o risco de apanhar novamente assim que o oficial for embora.

Por que o idoso pode negar que sofre violência dentro de casa

Não é tão simples assim para a o idoso assumir que sofre violência, assim como não é para as mulheres que apanham dos maridos. Idosos que apanham de cuidadores, filhos ou parentes, muitas vezes estão tão doentes quanto o agressor e, em muitos casos, sentem-se culpados, sentindo vergonha de assumir. 

No caso de parentes, há medo de que a pessoa que o agride seja presa, afinal de contas, ela é da família. No caso de funcionários, costumam ter medo de que o “profissional” possa voltar com outras pessoas para machucá-lo novamente, e até mesmo de que a família não acredite em seu relato. Estamos cansados de ver histórias assim na internet e na televisão.

O que deve ser pensado antes de denunciar?

A pessoa que sofre a violência tem outras pessoas que possam protegê-la ou até mesmo, em alguns casos, abrigá-la? Existem câmeras na casa que possam ter registrado algum tipo de agressão?

Caso o agressor seja uma pessoa doente, usuário de drogas ou com alguma doença psiquiátrica em que a cadeia não seja a solução, existe a chance de que ele vá diretamente para uma clínica para ser tratado? Existe alguma dignidade ao agressor nesses casos? Durante a pesquisa para esta matéria, conversei com alguns idosos que sofrem agressões desse tipo. A grande maioria dos agressores são parentes de primeiro grau, ou seja, os idosos são os pais dos agressores e se recusam a pensar na possibilidade de ter um filho na cadeia, sem chance de terem um tratamento adequado para voltarem a viver. Pense nisso, se coloque no lugar de um pai. Esse parece ser o ponto fraco da legislação. Pais costumam dizer que se houver esta garantia, fariam a denúncia com mais segurança, pois desejam o melhor para seus filhos. Além disso, o idoso agredido precisará de suporte psicológico para encarar todas as consequências de sua denúncia daqui por diante. 

O Estado fornece esse suporte?

Dessa forma, mais do que escrever sobre como fazer uma denuncia que deve ser realizada na delegacia do idoso ou pelo disk 100, quis falar sobre tudo o que pode acontecer se você fizer a denúncia. Às vezes, se possível, vale conversar com os familiares e pensar com eles em como se organizar para que a denúncia resolva primeiro o problema do idoso. 

ATENÇÃO

Isso não quer dizer que se você ouvir gritos, choro, ou ver que o idoso está machucado, você não deva denunciar. Às vezes apenas em receber um oficial de justiça o abusador pode se intimidar, mas é importante saber que apenas isso não resolve o problema definitivamente. 
Essas informações mostram que a violência contra o idoso é um tema que precisa ser amplamente discutido e conhecido pela população como um todo.

Algumas causas de violência contra a pessoa idosa

Estresse e falta de preparo de quem cuida, causados por cansaço ou falta de apoio familiar. Quem cuida precisa de cuidados e de descanso também.

Desemprego e falta de recursos financeiros – uma pessoa despreparada pode começar a pensar que o idoso é culpado pelo seu desemprego, além de ser oneroso para a família. 

Dependência de drogas (incluindo o álcool) – quando o responsável tem crise de abstinência ou falta de dinheiro para comprar drogas, e até mesmo em casos de surtos psicóticos, a violência pode acontecer.

Maldade e perversidade – de cuidadores ou responsáveis.

De toda forma, é muito importante estar atento aos possíveis sinais de violência e, em alguns casos, instalar uma câmera que possa registrar a ocorrência. 
São ações que podem salvar uma vida!

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Sobre a autora:

Daniela Santilli

Daniela Santilli, fundadora do Plano Cuida Idoso, onde escreve e compartilha sobre cuidados, direitos e experiências com a terceira idade, formada cuidadora de idosos pela Cruz Vermelha, estudante de Gerontologia. Atua no mercado atendendo a pessoa idosa e seus familiares em casa, onde trabalha segurança, organização, afeto e reinserção social da pessoa idosa.

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