Atividades Físicas | Cuidado

O corpo em transformação: o que fazer?

por Beltrina Côrte
20 de fevereiro de 2020

O corpo muda com a velhice. Engordamos, nossas extremidades crescem, perdemos cabelos ou eles ficam brancos. Como lidar de um jeito positivo com todas essas mudanças?

Foto: Ravi Patel – Unsplash

Gosto de reproduzir um fato presenciado por mim e vivenciado por Suzana Medeiros, na época coordenadora do Mestrado em Gerontologia da PUC-SP, quando lá entrei para ministrar aulas, em 2001. 

Ela, sumidade em envelhecimento, vivia sendo chamada para palestrar em diversos espaços. Em certa ocasião, aguardando sua vez de falar, ela, pacientemente, ouviu os palestrantes que a antecederam, todos médicos e mais jovens, falarem de todas as alterações pelas quais o corpo passa ao envelhecer, acabando nas diversas enfermidades, como se essas fossem o único destino da velhice. 

Ela, com mais de 75 anos, elegante, sobe calmamente ao palco com o auxílio de sua bengala e, serenamente, olha para a plateia e diz em tom bem-humorado: ainda bem que todas essas alterações que ocorrem em nosso corpo não chegam de uma só vez, senão eu não estaria aqui. O alívio da plateia é geral e se traduz em aplausos e risos.

Suzana chama a atenção para as alterações que nosso organismo sofre ao longo do processo de envelhecimento.

O tempo todo nosso corpo está em transformação. As alterações chegam de mansinho, devagarinho, se instalam em nosso corpo e nós as incorporamos, lentamente, sem darmos conta, até que o espelho um dia nos assombra. 

Começa com um fio de cabelo que teima em ser diferente dos demais. As mulheres, especialmente, tratam logo de escondê-lo, até que um dia, vencidas pelo cansaço, assumem os brancos. Aliás, agora, os brancos estão na moda. Com as rugas, ocorre o mesmo. Claro que há quem tenha dinheiro e estique aqui, ali, tire o bigode chinês e pronto, volta a se sentir jovem. Mas ao olhar para suas mãos… ah, essas não enganam, lá está a pele enrugada sempre a apontar a idade cronológica daquele corpo que tenta ser visto sempre pelo foco biomédico. Ou seja, em decadência.

Algumas pessoas, poucas na realidade, olham para esse mesmo corpo e agradecem as rugas como presente do tempo que habita nelas, como faz Betânia, que nunca pintou o cabelo e adora seus brancos, suas rugas, seu corpo. Ou como Fernanda Montenegro, que aos 90 anos, diz que “envelhecer é um privilégio, uma arte, um presente. Somar cabelos brancos, arrancar folhas no calendário e fazer aniversário deveria ser sempre um motivo de alegria. De alegria pela vida e pelo que estar aqui representa. Todas as nossas mudanças físicas são reflexo da vida, algo de que nós podemos sentir muito orgulhosos… As rugas nos fazem lembrar onde estiveram os sorrisos. As rugas são um sincero e bonito reflexo da idade, contada com os sorrisos dos nossos rostos. Mas quando começam a aparecer, nos fazem perceber quão efêmera e fugaz é a vida”.

Os exemplos dessas grandes artistas sobre seus corpos reais fazem ver o quanto se perde tempo na vida buscando um corpo ideal, um corpo mercadoria. Como se fosse possível ter um modelo ideal de velhice. Sem marcas. Um único modelo de corpo.

Como se reinventar e encontrar formas de lidar com o corpo que, junto com o sujeito que nos habita, se transforma com o tempo? Como lidar com um corpo real, um corpo que fale das dores da vida?

Sim, viver dói, viver pesa, viver engorda, enrouquece, enruga, embranquece. Como conviver com um organismo que fica lento, lerdo?

Não é fácil se dar conta que não podemos mais fazer as coisas que fazíamos antes, coisas simples como pintar as unhas dos pés. Deparar-se com o fato de que não se consegue mais escutar ou enxergar como antes. Deparar-se com as pernas, que não podem mais sustentar o corpo com a leveza de outrora…

Não há nenhuma fórmula mágica nem receita. Enfrentar essas alterações faz parte da vida, da maturidade que se vai adquirindo e colocando valores em outros lugares que não os da beleza exterior. Consiste em preocupar-se mais consigo mesmo, aceitar-se como é, ser feliz com pequenas coisas que acabam sendo grandiosas nessa etapa da vida, como reconhecer que chegou a certa idade sem estar numa cama. Ou de se sentir feliz por ainda ir ao banheiro e poder fazer a higiene sozinha. São essas pequenas coisas, tão banais na juventude, que dão sentido à vida na velhice. Coisas que passam despercebidas ao longo do tempo e que só com a idade vêm à tona…

Então, que tal gostar mais e fazer mais com o corpo que você tem?

Sobre a autora:

Beltrina Côrte

Beltrina Côrte é jornalista, doutora em Ciências da Comunicação e docente da PUC-SP. CEO do Portal do Envelhecimento e Espaço Longeviver.

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