Aprendizado

O Conselho do Idoso quer promover conexões

por Madu
29 de junho de 2020

Vera Fritz, presidente do Conselho Estadual do Idoso, conta a atuação do órgão para unir governo e sociedade civil a favor da população idosa

Foto: Egidio Dórea e Vera Fritz (Seminário Orgulho Prateado, outubro/2019)

O Conselho Estadual do Idoso de São Paulo é um órgão vinculado à Secretaria de Desenvolvimento Social (SEDS), que tem como objetivos  articular, mobilizar, estimular, apoiar, fiscalizar e deliberar projetos, questões relativas à Política Estadual do Idoso, buscar parcerias entre Órgãos Públicos e Instituições da Sociedade Civil e apoiar todas as iniciativas que visam promover a pessoa idosa em qualquer lugar do Estado.

O projeto Rede Bem Estar é um dos 48 projetos beneficiados pelo edital realizado pelo CEI em 2016, apoiando centenas de pessoas idosas pelo Estado a partir de conteúdos digitais, e também de um programa educativo para profissionais da longevidade e da saúde.

Conversamos com Vera Fritz, presidente do CEI. Formada em Educação Física, teve uma carreira que unia exercícios físicos e saúde de pessoas com problemas cardíacos. “Quando voltei da Alemanha para morar no Brasil, descobri que era idosa”, brinca. Morando em Valinhos, interior de São Paulo, foi eleita presidente da Câmara da Melhor Idade, convidada para fazer um programa de rádio e começou a atuar mais fortemente com políticas públicas e envelhecimento. Em 2018, já vice-presidente do CEI, foi eleita para presidir o conselho por dois anos. 

Qual o papel do Conselho do Idoso nos dias de hoje?

O Conselho é um espaço de solidificação da política pública voltada para a pessoa idosa. Ele tem que fiscalizar, propor, discutir, perceber e fazer com que os municípios, que são aqueles que estão diretamente ligados aos idosos, atuem, cumpram sua função, entendam qual o caminho que tem que fazer. A sociedade civil e o poder público se complementam para que a política pública seja efetiva e adequada às necessidades das pessoas idosas. Afinal, o Brasil é um país com muitas necessidades. A gente está vendo isso agora com a crise do coronavírus.

Em 2020, a gente ainda fala de analfabetismo da pessoa idosa. Embora a lei determine que todas as crianças precisam estar na escola, vemos uma criança vendendo bala na porta da Câmara dos Deputados. Se essa criança sobreviver 50 anos, a gente vai continuar discutindo analfabetismo da pessoa idosa, entende?

Pode contar mais sobre o edital do CEI que apoia projetos? Para você, quais são os tipos de projetos que mais podem beneficiar a população idosa? 

Em torno de 100 projetos foram aprovados no nosso último edital. Eu estive em dois projetos que marcaram muito: o do HCor e o do Profissão Repórter 60+. Nesse último, fizeram um projeto maravilhoso em que as pessoas começaram a perceber que elas podiam escrever, pesquisar, atuar como comunicadores. E ainda escreveram um livro sobre isso. 

Esse projeto é interessante porque foi realizado por pessoas jovens. No encerramento do curso, esses jovens descobriram que quem aprendeu foram eles, quem mudou o curso de vida foram os jovens. Já os idosos estavam fascinados porque descobriram que podiam abrir novas portas. 

Já o HCor fez um projeto que buscava entender por que os pacientes coronarianos não evoluíam. Eles identificaram que existia um momento pessoal desses pacientes. Em união com o Sebrae, criaram o empreendedorismo 60+. O Sebrae precisou criar instrumentos para a pessoa idosa. No final, 80% dos idosos abriram seu negócio. Aqueles que não estavam atuando com o trabalho novo, mudaram o seu olhar para a vida e começaram a caminhar. A ligação entre essas pessoas e esse hospital, que conseguiu ver além da medicina, fez um trabalho maravilhoso. Também foi gratificante ver gente jovem produzindo trabalho de qualidade, com atenção, indo além do técnico. 

Ter a possibilidade desses trabalhos, desses projetos serem desenvolvidos por jovens é muito bom, porque cria um elo com o envelhecer. Essas pessoas estão aprendendo sobre o próprio envelhecimento. Um ajuda o outro, e a gente pode caminhar sim de mãos dadas. O envelhecer não está no outro, ele está em mim.

Como idosos podem participar mais ativamente das políticas públicas para pessoas idosas?

A gente precisa que, no município, no bairro, eles busquem contato com essas pessoas. O município precisa abrir espaço para a participação do idoso. Se o idoso, que não está habituado a estar na rua, não tiver clareza do que o município oferece, ele não vai participar. 

Uma boa parte dos idosos são analfabetos. O que fazemos? Quantos centros de convivência oferecem cursos de alfabetização? Nós fizemos aqui em Valinhos uma conferência, e uma senhora que não sabia ler e nem escrever perguntou se podia participar. Percebemos que tinha um número enorme de pessoas analfabetas e semianalfabetas. Descobrimos que o curso de alfabetização só acontecia no período noturno. Articulamos, fizemos um modelo com aula e lanche, no centro de convivência, durante o dia. Mudou o governo e queriam mudar. Os idosos que já estão instrumentalizados bateram o pé para a iniciativa continuar.

Os idosos têm que perceber seus espaços, direitos e deveres. Isso é básico para as políticas públicas sejam efetivas. “Eu estou onde, preciso do que e faço o quê? O que tem no meu município?”. Talvez o idoso não faça esse questionamento, mas o poder público tem que criar formas para fazer esses espaços serem efetivos. 

O papel do Conselho Estadual é apoiar que os conselhos municipais se instrumentalizem. Precisamos fazer uma roda de conversa sobre o envelhecer no seu município. Precisamos fazer com que as pessoas se comprometam com o tema do envelhecimento nos seus municípios.

Para finalizarmos, como a senhora enxerga o futuro da atuação do CEI no Estado de São Paulo?

Eu acho que, primeiro, a gente precisa de um contato mais próximo com os municípios. Vou te dar um exemplo de boa atuação no território: as regiões do Vale do Paraíba e do Litoral Norte se reuniram e fazem reuniões bimestrais para identificar as dificuldades. Eles criaram uma rede.

Nos encontros, eles discutem e debatem soluções para a região. É um projeto que mostra como – juntos e dialogando – a gente encontra um caminho melhor. O conselho deve incentivar o contato no território entre vizinhos. “O que está acontecendo na nossa região, quais as nossas dificuldades e como vamos resolvendo e buscando soluções?”. Esse projeto é um exemplo que a gente pode replicar nas outras regiões. Poder público e sociedade civil precisam ser complementares, andar de mãos dadas.

Sobre a autora:

Madu

MADU é uma iniciativa do projeto Rede Bem Estar, realizado pelo Conselho Estadual do Idoso, em parceria com o Grupo Tellus, a Brasilprev e a Liga Solidária. Foi criada para potencializar a relação entre pessoas mais velhas, seus familiares e amigos além de compartilhar conteúdos sobre envelhecimento e velhice.

Madu

Receba conteúdos especiais da Madu pelo seu email

Somos guardiões das memórias afetivas de tudo que vivemos e queremos compartilhá-las. Vamos juntas e juntos construir relações de afeto entre gerações? Te esperamos pra mais essa jornada! Conheça o nosso manifesto clicando aqui.

Veja nosso Manifesto