Aprendizado

Nunca é tarde para se alfabetizar

por Beltrina Côrte
24 de março de 2020

A taxa de analfabetismo e analfabetismo funcional da população idosa é alta. Se o idoso desejar, como eu posso apoiar a alfabetização? Quais cuidados devo ter?

Foto: Clément Falize – Unsplash

Minha mãe, nascida em 1922, em uma pequena vila em Portugal, não teve acesso à educação formal, mas fez de tudo para que seus filhos e filhas estudassem. Morre em 1996, antes do surgimento do Google e da invasão da internet, sem saber ler e escrever uma só palavra. Mesmo analfabeta, mantém em suas mãos o controle financeiro da família.

A história da minha mãe é igual à de muitas mulheres mais velhas, que compõem a maior taxa dos que não sabem ler ou escrever. No Brasil, ultrapassa 18% o número de analfabetos acima de 60 anos, de acordo com dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Quanto mais velho o grupo populacional, maior a proporção de analfabetos. Cerca de seis milhões de pessoas idosas não sabem ler nem escrever, o que mostra as deficiências do estado no desenvolvimento das políticas de alfabetização.

O país tem mais de 11 milhões de analfabetos de 15 anos ou mais, o que corresponde a 6,8% da população.

Se nada for feito, esse grupo vai compor os futuros idosos analfabetos. Os números mostram que o Brasil não alcançou uma das metas intermediárias estabelecidas pelo Plano Nacional de Educação (PNE), em relação à alfabetização da população com 15 anos ou mais, que prevê para 2024 a erradicação do analfabetismo no Brasil.

A dívida do país em relação à educação é histórica, e pagá-la continua fora das prioridades, ao contrário da minha mãe que, analfabeta, impõe como prioridade minha educação e a de meus irmãos. Mas, empoderada de sua autonomia, não quer aprender a ler e escrever quando idosa.

Em declaração à imprensa, Priscila Cruz, na ocasião diretora executiva do movimento Todos Pela Educação, diz: o analfabetismo impede que a pessoa aumente sua renda, consiga um emprego melhor, rompa a bolha de exclusão em que está presa há gerações.

Uma pessoa pobre que não sabe ler ou escrever tem pouquíssimas chances de sair da pobreza.

Na “XV Conferência Estadual do Idoso – Os desafios de envelhecer no século XXI e o papel das políticas públicas” (novembro de 2019) – constata-se a proposta de Conselhos de Idosos encaminhada por apenas cinco municípios do estado de São Paulo de uma política para “ampliar a divulgação das vagas do EJA – Educação para Jovens e Adultos, por parte da Secretaria da Educação, pois muitos idosos desejam estudar ou concluir seus estudos, como também abrir vagas (uma sala) no período diurno”.

Cerca de mais de mil escolas estaduais paulistas oferecem as aulas do EJA, conhecida antigamente como supletivo, uma modalidade de ensino criada pelo governo federal, que passa por todos os níveis da Educação Básica do país, e é destinada para jovens, adultos e idosos que não tiveram acesso à educação na escola convencional na idade apropriada ou abandonaram os estudos. A oferta é tanto presencial quanto à distância.

O que se deve levar em conta na alfabetização

Ewerton Fernandes de Souza, um dos 50 finalistas do Prêmio Educador Nota 10 de 2017, diz que ensinar jovens e adultos pressupõe um envolvimento maior do professor com seus alunos: ele “precisa se aproximar, ouvir, conversar, compreender os problemas (da aprendizagem e da vida) e estimular seus educandos. Sem esse tête-à-tête, qualquer esforço será em vão”. Ele faz algumas considerações, que adaptamos àqueles que querem ensinar às pessoas idosas que desejam aprender a ler e escrever:

  1. Levar em conta as histórias de vida das pessoas idosas
  2. Respeitar o tempo de cada um
  3. Reconhecer, como regra, cada faixa etária com suas especificidades e, mesmo dentro de cada faixa, a heterogeneidade, diversidade e complexidade
  4. Motivar sempre e não desistir jamais

Sobre a autora:

Beltrina Côrte

Beltrina Côrte é jornalista, doutora em Ciências da Comunicação e docente da PUC-SP. CEO do Portal do Envelhecimento e Espaço Longeviver.

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