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Morar só, até quando?

por Beltrina Côrte
19 de março de 2020

Morar sozinho na velhice é normal? Os filhos e netos podem se preocupar com a pessoa idosa morando sozinha, mas isso pode garantir a autonomia e a personalidade dessa pessoa.

Foto: Nick Karvounis – Unsplash

Aurora, 68 anos, financeiramente estável, resolve ajudar a família e compra, perto de sua casa, um bom apartamento para sua mãe e sua irmã mais velha, que moram em uma casa simples de um bairro periférico da Grande São Paulo. Faz uma coisa que sempre quis: trazer as duas para perto, um bairro central, seguro e com todos os serviços próximos. Reforma o apartamento para torná-lo acessível, escolhe móveis modernos e práticos, eletrodomésticos, roupas de cama, banho e mesa, tudo novo. Gasta com prazer e alegria no coração. Com o apartamento pronto, Aurora vai até a casa das duas contar a novidade e imagina a alegria que causará, mas a reação é outra. As duas não querem saber, nem ver, nem conversar a respeito. Rejeitam, abominam a ideia. Aurora chora, se decepciona, ameaça romper com as duas, se frustra de tal maneira que promete a si mesma que nunca mais ajudará ninguém. 

É ficção, mas é real. O que acontece? Vejamos:

Aurora não levou em conta o desejo de sua mãe nem de sua irmã. Quis, na mais boa intenção, resolver um problema que era antes de tudo, dela: diminuir a distância de seu deslocamento na cidade para se encontrar com as duas. Mas quem disse que a mãe e a irmã queriam se mudar? Por que deixariam o lugar no qual vivem há anos, onde conhecem todo o entorno, circulam por ele com independência e conforto, para morar em um apartamento deslocado do lugar em que construíram uma história, uma trajetória de vida? 

Aurora pensa: todos que elas conheciam já morreram, não há mais ninguém do tempo delas, vivem sozinhas em um lugar longe e perigoso. E o apartamento é mil vezes melhor que a casa antiga e caindo aos pedaços, que vive dando problema. No apartamento, teriam melhor qualidade de vida e seriam assistidas facilmente em uma emergência. Será, Aurora? Não seria o contrário? Elas se sentirem isoladas e inseguras vivendo em um lugar desconhecido? Aurora esqueceu de que a dignidade da moradia para a pessoa idosa passa, antes de tudo, pela livre escolha do local de morada. E a palavra minha casa é construída com emoções e sentimentos. Como não se deu conta disso? 

O que leva uma pessoa idosa a querer mudar? Ou não? E a querer viver só?

No nosso caso, a mãe e a irmã mais velha de Aurora se sentem mais confortáveis onde estão. Ali na periferia, têm autonomia e suas personalidades estão garantidas e preservadas. Talvez, inconscientemente, percebam que podem perder esse bem-estar ao mudar para um lugar que nunca entenderão como delas, pois não o escolheram e não irão se identificar com nada, como mobília e demais elementos escolhidos por Aurora. Quem disse que querem a ingerência de Aurora em suas vidas?

Às vezes, é tamanha a preocupação do familiar em oferecer melhor qualidade de vida, que ele esquece que a pessoa idosa não é um objeto que pode ser mudado de lugar a qualquer momento, colocado onde bem quiser. Mas sim, um ser de desejos e que, historicamente, no lugar onde escolheu viver, desenvolveu uma história que em muitos casos ocupa a maior parte de sua vida.

As Auroras são muitas, é um caso que mostra como familiares não levam em conta os desejos de seus entes queridos mais velhos que insistem, muitas vezes, em viver sós. Como garantir, nesse caso, também o conforto do restante da família? Tarefa nada fácil.

Ante essa situação, o que fazer?

Ora, se o cuidado consiste em administrar e prover a casa com os recursos necessários, manter uma boa alimentação em horários regulares e se cuidar, mesmo com alterações de sua força e sentidos, o melhor é perguntar se a pessoa idosa em questão precisa de ajuda, e de que tipo de apoio necessita. E respeitar isso até quando for possível, ou seja, até o limite de uma institucionalização, caso seja necessário.

Há outros casos em que pessoas idosas resolvem por conta própria deixar a casa da vida toda para vivenciar outra experiência de moradia. Algumas escolhem repúblicas, outras  cohousing (co-lares em português), em que grupos de idosos se organizam para viver coletiva e comunitariamente e, outros, em condomínios horizontais fechados, seja por iniciativa própria ou em situações específicas, sendo financiados pelo estado ou ofertadas pelo mercado.

Casas de Repouso, Clínicas Geriátricas, Casas Terapêuticas, Instituições de Longa Permanência (ILPIs) e similares são o tipo de moradia menos escolhida pela pessoa idosa que ainda se sente bem para gerir ou viver com autonomia, seja de forma individual ou coletiva. Mas quando há necessidade de maiores cuidados e dependência em que nem sempre a família, quando há, dá conta, a alternativa é buscar uma dessas opções. 

Conheça algumas iniciativas de moradias públicas 

Projeto Vila ConViver (Campinas): baseado no modelo de comunidades intencionais para docentes aposentados ou em vias de se aposentar, da Unicamp (Campinas).

Vila Dignidade (Estado de São Paulo): moradias projetadas para pessoas idosas, levando em conta os parâmetros do desenho universal, em núcleos horizontais de até 24 unidades, com centro de convivência e área de lazer.

Cidade Madura (Paraíba): promove o acesso da pessoa idosa à moradia digna, equipamentos para a convivência social e lazer, constituindo-se em Política de Estado em conformidade com o Estatuto do Idoso.

Vila do Pari (cidade de São Paulo): Conhecida também como Vila dos Idosos, é resultado de muita luta. Nela, moram aposentados com renda entre um e três salários mínimos, oriundos de diversos bairros, inclusive dos edifícios São Vito e Mercúrio, desocupados pelo poder público na região central da capital paulista.

Repúblicas (Santos/SP): são imóveis alugados que foram modificados para se adequarem ao público idoso. Trata-se de projeto municipal que abriga homens e mulheres que vivem em situação de vulnerabilidade social. Atualmente, a cidade tem três unidades do programa de moradias em repúblicas.

Sobre a autora:

Beltrina Côrte

Beltrina Côrte é jornalista, doutora em Ciências da Comunicação e docente da PUC-SP. CEO do Portal do Envelhecimento e Espaço Longeviver.

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