Aprendizado | Cuidado

Como estão os serviços e espaços de moradia para pessoas idosas no mundo

por Denise Mazzaferro
27 de julho de 2020

Quais os diferentes tipos de moradia que existem para idosos no mundo e de que maneira refletem a cultura do local?

Foto: Ocskay Bence – Shutterstock

Olhar para frente e entender quem são os idosos de hoje e quem serão os 30% que farão parte da população brasileira em 2050 é de extrema importância para traçarmos qualquer estratégia de política pública ou empreendimento privado. Teremos evoluído o que precisamos evoluir nas questões sociais? E em relação ao preconceito? Que tipo de serviços realmente precisamos para atender essas pessoas?

Em países já envelhecidos como Japão, Alemanha, Portugal e Estados Unidos, vemos uma grande evolução. Isso acontece não somente nos empreendimentos de moradia, como também na ampliação de serviços que propiciam a permanência dos idosos em suas casas.

A experiência japonesa

No Japão, estudos governamentais (2014) revelaram que o número de pessoas de mais de 65 anos tinha superado, pela primeira vez, os 30 milhões. Isso representa quase um quarto de toda a população.

Em 1963, prevendo o rápido envelhecimento de sua população o governo japonês criou a lei da Previdência para o Idoso. De lá para cá, vem apoiando diversas iniciativas de construções de espaços de moradia institucionais para idosos mais fragilizados. Hoje, volta sua atenção para ações de suporte para o domicílio, família, geração de renda e estímulo à participação social. Para fomentar a iniciativa privada, criou políticas de incentivo fiscal para aqueles que decidem empreender no setor.

Ainda, o governo japonês conta com uma criteriosa classificação funcional e cognitiva para avaliar o idoso e estimar quais serviços são necessários e aconselhados para sua vida e sobrevivência com qualidade. Ou seja, por meio desse serviço, não só informa as necessidades, como também comunica as ofertas.Os próprios idosos e seus familiares podem buscar, em um portal, locais e serviços  por custo, proximidade e necessidade.

Com o principal objetivo de manter a independência do usuário em casa por maior tempo possível, os japoneses possuem uma ampla gama de serviços domiciliares, como serviços domésticos programados (alimentação e limpeza), assistência para compras, cuidador(a) temporário(a), entre outros. 

Moradia para idosos também é preocupação no mundo ocidental

Em outros países como Alemanha, Portugal e Estados Unidos, a oferta de serviços domiciliares também é bastante ampla. No entanto, dependendo das questões culturais, pode ou não evoluir para a opção de um empreendimento de moradia que, além de oferecer todos esses serviços, também possibilita a sociabilização.

É preciso lembrar que a cultura japonesa realmente valoriza o idoso, criando uma rede de socialização não só com familiares, mas também comunitária, o que combate uma questão tão séria que é o isolamento social.

Nos Estados Unidos, os filhos saem de casa cedo, e os pais já estão habituados à ideia de que terão de tomar conta de si mesmos na velhice. Por isso, a ideia de morar em Instituições de Longa Permanência para Idosos (ILPIs) está mais amadurecida. Os americanos, já em 1985, com  o filme Cocoon, “vendiam” esses empreendimentos como espaços bacanas e alegres, onde qualquer um gostaria de passar sua velhice – com amigos, festas, muita diversão.

Lá eles estão divididos da seguinte forma:

  • Independent Living – prédios voltados para idosos independentes e com autonomia.
  • Care Center ou Nursing Homes – prédios voltados para idosos semidependentes ou dependentes fisicamente.
  • Memory Care – prédios voltados para idosos com Alzheimer ou outras doenças com grandes déficits cognitivos.
  • Aging in place – envelhecendo no local,  é o conceito que norteia a maioria dos empreendimentos americanos, permitindo que você continue no mesmo lugar caso seja acometido por um declínio funcional ou cognitivo

No caso dos moradores do “Memory Care”, eles normalmente não podem sair do seu prédio desacompanhados. Os demais podem transitar livremente.

Normalmente, os preços não variam muito, pois mesmo aumentando o nível de cuidado de um serviço para outro, os espaços das acomodações podem diminuir, o que permite que um custo compense o outro.

Mesmo com todo este contexto, o americano está preparado ou sonha morar em residencial para idosos?

A idade média de entrada nos residenciais para independentes está na faixa de 85-90 anos, ou seja, “são pessoas já bem idosas e que normalmente acabaram de sofrer alguma perda grave”. Foi o que me disse Teri Romero, gerente do residencial The Palace. Esse residencial tem 180 vagas para independentes, 420 residentes nos prédios de assistidos e demenciados, e 150 residentes no prédio de totalmente dependentes e pacientes em reabilitação. “Depois que eles mudam e começam a se sociabilizar, descobrem como é bom estar em um lugar com tantos amigos, mas tomar a decisão é muito difícil”, completa Terri.

Educação e Autonomia

Para Jane Sonet, gerente de vendas do residencial “VI at Lakeside”, a palavra chave para uma maior conscientização tanto para o envelhecimento como para novos modelos de moradia é educação. “As pessoas demoram muito tempo para vir”, adverte Jane.

As dificuldades são tão grandes que eles criaram um serviço que cuida de todo o processo de mudança – desde empacotar os móveis e pertences, vender ou doar o que não será aproveitado, trocar os endereços de correspondências. “Imagina uma pessoa que morou mais de 40 anos na mesma casa, com 85 anos, pensar em fazer tudo sozinha. Ás vezes esse é um dos motivos que impede a decisão. Somos os únicos que fazem isso”, completa Jane.

Ela também colocou bastante ênfase na autonomia do idoso. Segundo ela, a última decisão deve ser sempre do idoso. No caso dos americanos que se mudam para residenciais para independentes, normalmente são eles quem tomam a decisão. “Contam para os filhos depois que já acertaram tudo conosco”, completa Jane.

Teri e Jane concordam quando mencionam que mesmo em países com os Estados Unidos, onde a cultura do cuidado da família não é tão forte, ainda assim existe a resistência à aceitação da velhice, já que esses espaços são moradias para velhos.

Sobre a autora:

Denise Mazzaferro

Denise Mazzaferro é mestre em gerontologia, sócia da Angatu IDH, membra do Conselho do OLHE (Observatório da Longevidade Humana e Envelhecimento) e autora do livro “Longevidade – Os desafios e as oportunidades de se reinventar”.

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