Aprendizado

Bella ainda mais bela

por Denise Mazzaferro
3 de fevereiro de 2020
Foto: Monkey Business Images – Shutterstock

Uma grande amiga, prestes a completar seus 41 anos, me conta que resolveu assumir seus cabelos brancos. Num primeiro momento, meu ímpeto foi dizer-lhe: “Nossa, Bella, ainda somos tão jovens. Já?!”

O processo de aceitação do envelhecimento exige tempo, mas Bella é autêntica, moderna, desbravadora e, acima de tudo, contestadora. Imagino até que a cada fio branco ela perguntou: “Olá, quem és?”.

Não lhe perguntei como é essa espera. A espera de vê-los surgir, marcarem suas raízes sem, porém, tomarem a cabeça completamente. Se me permitem, até arrisco uma hipótese de que essa experiência deve ser algo parecido com o que sentimos todas as vezes em que vemos surgir em nós –  o novo, o inusitado.

Sim! O inusitado dos cabelos brancos, das rugas, da flacidez, do cansaço.

Hoje encontrei-a com um corte moderno e… grisalha. Sim, grisalha aos 41 anos recém-completados. Minha primeira impressão é que sua aparência ficou mais séria, mais compenetrada. Quanta potência está contida nessa beleza que se dispõe a trazer o novo, o moderno, o branco como cor de Vida.

Reflito como nós, mulheres, não percebemos em nós mesmas esse lado “Bela”. Não no sentido estético, mas em nossa capacidade de proporcionar sensações, experiências, aprendizados. É dessa beleza que Bella se alimenta para enfrentar o novo por meio do branco que socialmente nos remete ao velho!

A partir desta potência, imagino a “Bela Velhice”; não no sentido estético, mas na sua vivência. Contudo, quando contextualizamos beleza, percebemos que, de forma antagônica, se instauram duas possibilidades: a Beleza Vivida e a Beleza Estética.

É a busca incessante pela beleza estética, dissociada da beleza vivida, que justifica a terceira posição mundial ocupada pelo Brasil no mercado de cosméticos, perdendo apenas para os Estados Unidos e Japão.

O crescimento da indústria da beleza no Brasil é cada vez maior. Esse crescimento que se materializa por meio do consumo, reforçando oposições importantes (juventude/velhice, saúde/doença, magreza/gordura, beleza/feiura). Torna-se uma maneira de lutar avidamente contra a fatalidade natural, como se o consumo da beleza estética conseguisse ser o “antidestino” da beleza vivida.

Essa dissociação exalta e promove uma beleza inexistente porque, ao negarmos os sinais do tempo, perceberemos que eles estão em outro lugar. Afinal, os sinais estão dentro de nós! Eles nos marcaram, estão em nossas memórias, eles nos compuseram e são a nossa BELEZA: na velhice, na infância e na juventude. É esse tempo que nos faz e sempre nos fará BELAS.

E, foi nesses brancos, sinais da sua potência, que hoje enxerguei Bella ainda mais bela!

Sobre a autora:

Denise Mazzaferro

Denise Mazzaferro é mestre em gerontologia, sócia da Angatu IDH, membra do Conselho do OLHE (Observatório da Longevidade Humana e Envelhecimento) e autora do livro “Longevidade – Os desafios e as oportunidades de se reinventar”.

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