Aprendizado

Autonomia na terceira idade: como comunicar minhas decisões

por Paulo Ishimaru
31 de agosto de 2020

Comunicação e respeito pelas escolhas dos idosos devem orientar relações familiares

Foto: Monkey Business Images – Shutterstock

Atualmente, a população de terceira idade, devido ao aumento da expectativa e qualidade de vida, tem ocupado diferentes papéis na sociedade, quando comparado a outras épocas e culturas. Nesse contexto, o tema autonomia na terceira idade tem ganhado força. 

Apesar de todos os problemas relacionados ao preconceito, valorização e atendimento que essa população sofre, sua presença e protagonismo dentro de seus círculos sociais devem ser respeitados.

A psicóloga Heloisa Ribeiro Zapparoli* ajuda a compreender essa nova realidade, a autonomia na terceira idade e quais estratégias para pessoa idosa se comunicar com a família, em entrevista ao portal Rede Bem Estar.

Com a crescimento da população de terceira idade e a mudança do perfil desses idosos, a busca pelo protagonismo em seus grupos sociais é maior do que em outras épocas?

Segundo dados do IBGE, houve um crescimento da população idosa no brasil nos últimos anos, além de um aumento na expectativa de vida. As características de um idoso 50 anos atrás não são as mesmas características do idoso de hoje. É possível que muitos passem dos 80 bastante ativos e saudáveis, e isso faz com que seja necessária uma adaptação da sociedade, incluindo idosos. É preciso que eles busquem protagonismo em suas vidas, para que esse momento também seja bem aproveitado. Devem continuar agindo de acordo com seus valores, para que tenham uma vida que valha a pena ser vivida.

A autonomia na terceira idade pode gerar preocupações para as gerações mais novas. Como o idoso pode se afirmar como “dono” de suas atitudes?

Infelizmente, muitos indivíduos experimentam uma perda de controle na tomada de decisões e nas escolhas sobre a própria vida durante a velhice, em decorrência de limitações físicas, de saúde, ou até mesmo daquelas impostas pela família. Como consequência disso, podemos observar, por exemplo, sentimentos de desconforto, insatisfação e angústia. A família precisa estar atenta às vivências do idoso, deve se colocar no lugar dele, compreendendo seus sentimentos, validando-os, demonstrando apoio e oferecendo conforto.

Existe um estudo clássico da psicologia de Langer, E.G., & Rodin, J., de 1976, publicado no Journal of Personality and Social Psychology, no qual foi observado que um maior poder de controle, escolha e responsabilidade em idosos os deixavam mais ativos e fazia com que se sentissem mais felizes, tanto em relação ao que eles mesmos relataram, quanto ao que foi observado por funcionários da casa de repouso em que estavam instalados. Com isso, podemos perceber como garantir essa autonomia é importante para uma melhor qualidade de vida na velhice. O idoso pode se afirmar “dono” de suas atitudes a partir de seus próprios comportamentos, mesmo com algumas limitações, e o papel da família deve ser de oferecer apoio.

Com idosos prolongando mais suas atividades sociais, seja no trabalho, entretenimento, lazer ou vida sexual, como ele deve comunicar à família suas escolhas?

O idoso deve se comunicar com a família, manifestando suas opiniões, seus sentimentos e suas vontades de forma aberta, honesta e respeitosa. Ele precisa também ser coerente em relação ao que pensa, fala e faz. Assim, poderá obter resultados benéficos na relação familiar, aprimorando sua qualidade, e também em sua vida, ampliando a autonomia na terceira idade. Mas isso nem sempre é fácil! É preciso um equilíbrio para que ele não se comporte nem de forma passiva, deixando de se expressar e beneficiando apenas o outro, nem de forma agressiva, causando aborrecimentos e desrespeitando o outro.

Há estratégias para essa comunicação?

Quando sente que sua autonomia está sendo prejudicada pela família, o idoso pode procurar expressar esse desagrado e solicitar uma mudança de forma gentil e direta. Para fazer isso, é fundamental que ele especifique quais comportamentos dos familiares deveriam ser alterados, indicando, se possível, quais poderiam substituí-los.

Ele também deve deixar claro porque essa mudança beneficiaria a todos. Um exemplo: “Vejo que você tem feito compras no mercado semanalmente para me ajudar, mas sinto que sou capaz de fazer isso por mim mesmo, e me sentiria mais à vontade escolhendo os itens que quero comprar. Você poderia repassar essa responsabilidade para mim e me ajudar apenas nos momentos em que eu solicitar, assim você não precisaria se preocupar com isso toda semana, e eu teria mais autonomia.”.

Vale ressaltar a importância de ponderar a ocasião, a forma e o conteúdo dessa comunicação para que ela seja bem aceita pelos familiares. Além disso, quando se trata de autonomia na terceira idade, é possível que as partes necessitem debater outras alternativas, além da que foi proposta inicialmente pelo idoso e, nesse caso, é interessante que reflitam juntos sobre as possibilidades de soluções, suas prováveis consequências e viabilidade de aplicação no dia a dia da família.

*Heloisa Ribeiro Zapparoli é psicóloga, graduada e mestranda no Programa de Pós-Graduação em psicologia da Universidade Federal de São Carlos.

Sobre o autor:

Paulo Ishimaru

Profissional de comunicação com formação em Jornalismo e pós-graduação em Gestão Estratégica de Negócios. Cursou Ciências Sociais e acredita que a comunicação, aliada à tecnologia, é uma das grandes ferramentas de transformação social e empresarial. Professor universitário nos cursos de Jornalismo, Marketing e Design.

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