Aprendizado

Entrevista com Conrado Schlochauer. Aprendizado contínuo ao longo da vida.

por Madu
15 de abril de 2020

Em entrevista, Conrado Schlochauer conta a importância de se manter aprendendo ao longo da vida e a participação ativa na sociedade

Foto: Dariusz Sankowski – Pixabay

Existe um limite de idade para aprendermos coisas novas? Conseguimos ter um  aprendizado contínuo ao longo da vida? Antigamente, o senso comum entendia que não era possível se desenvolver depois da juventude. No entanto, isso começou a mudar por volta dos anos 1970, quando ONU (Organização das Nações Unidas) e OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico) começaram a fazer debates e pesquisas para compreender o desenvolvimento cognitivo na fase adulta.

O aprendizado contínuo ou aprendizado ao longo da vida começou a ganhar espaço no meio educacional. Conversamos com Conrado Schlochauer, um dos maiores especialistas brasileiros na temática, para conhecer melhor o assunto. Fundador da Affero Lab, a maior empresa de treinamento corporativo do Brasil, e Doutor em Psicologia de Aprendizagem sobre Aprendizagem Autodirigida em Ambientes Informais, hoje ele dedica seu tempo a empreendimentos para promoção do aprendizado ao longo da vida.

Como você entrou em contato com essa área da Aprendizagem ao Longo da Vida?

Isso começou quando estava fazendo doutorado na Psicologia de Aprendizagem. Eu não sei exatamente como caí nesse tema, porque meu projeto inicial não tinha nada a ver com isso. Quando comecei a pesquisar, descobri os documentos criados pela ONU e por outros organismos. Eles entenderam que a lógica de aprender só no começo da vida não ia dar certo pra nossa sociedade. A premissa que usamos para pensar aprendizagem está errada. Uma série de pesquisas mostra como o desenvolvimento cognitivo continua na fase adulta. Então, comecei a focar mais nisso.

Nessa época, o termo que eles usavam era Educação ao Longo da Vida. Como isso foi mudando para chegar em Aprendizado ao Longo da Vida?

Além da questão vocacional, existe uma questão social. A pessoa que não tiver um aprendizado contínuo não vai conseguir viver em sociedade. 

Vou dar minha mãe como exemplo: ela tem 80 anos e continua aprendendo. Ela é pianista e, agora, com a quarentena, baixou o Vimeo no celular e começou a postar vídeos dela tocando na internet. Cada vídeo tem 70, 80 interações. Se ela não tivesse feito isso, não teria tanta interação social. Não é só sobre estar com amigos, mas também participar ativamente na sociedade.

E como você acha que a gente tem que explicar sobre o aprendizado contínuo para pessoas idosas?

Para que explicar? Basta perguntar se ela quer fazer uma coisa nova. Não vejo vantagem em explicar o conceito. Não é “você quer aprender uma coisa nova?”, mas sim “você quer FAZER uma coisa nova?”. Muitas vezes, a relação da pessoa com a educação formal não é positiva. Ele pode não ter tido oportunidade de estudar, repetido de ano, ter tido experiências negativas com educação.

Ao invés de convencer uma pessoa de 70 anos a voltar para a escola, eu tiraria o olhar do educar e do aprender da conversa. Tentaria entender quais os sonhos que essa pessoa teve – pode ser aprender uma nova língua, cozinhar, escrever poesia. Testaria a pergunta: “O que você queria ter feito que nunca fez?”. Depois, atuaria seguindo os 6 princípios da andragogia. O primeiro deles é exatamente a necessidade do aprendiz de saber.

Para saber mais sobre os princípios da andragogia, veja o vídeo abaixo.

O idoso pode seguir com autonomia no próprio processo de aprendizagem. Agora, se uma outra pessoa quiser apoiá-lo nessa jornada, quais habilidades e posturas ela deve desenvolver?

O papel mais importante é de facilitar o processo de aprendizado e de ser um curador. Você precisa ser um facilitador, não um provedor. O facilitador é uma pessoa que vai entender as necessidades e montar uma experiência para a pessoa ou para um grupo. Não é falar “tá aqui o link. Vai lá e se vira”. Ter alguém que apoie o processo é fundamental. 

Se você for fazer isso com pessoas que tenham dificuldades na alfabetização ou pouco acesso à internet, recomendo que faça em grupo. Precisa ser um aprendizado contínuo em grupo mediado pelo educador. É como se fosse uma comunidade de prática. Para isso, é importante encontrar pessoas que tenham sonhos parecidos e voluntários que tenham conhecimento para realizá-los junto. Também vale trabalhar totalmente por projeto: com zero conteúdo e teoria, as pessoas aprendem com base da realização de uma iniciativa.

Confira outros vídeos com os pensamentos de Conrado:

Sobre a autora:

Madu

MADU é uma iniciativa do projeto Rede Bem Estar, realizado pelo Conselho Estadual do Idoso, em parceria com o Grupo Tellus, a Brasilprev e a Liga Solidária. Foi criada para potencializar a relação entre pessoas mais velhas, seus familiares e amigos além de compartilhar conteúdos sobre envelhecimento e velhice.

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