Aprendizado | Carreira

Aposentadoria: um paralelo entre o esporte e as carreiras corporativas

por Denise Mazzaferro
7 de abril de 2020

É importante refletir sobre o momento da aposentadoria e refletir sobre o “pós-carreira”

Foto: NDAB Creativity – Shutterstock

Na abertura dos Jogos Olímpicos Rio 2016, além de toda a beleza do espetáculo apresentado, me emocionei com a entrada das delegações ao ver olhos marejados de lágrimas em vários atletas. Entrar no Maracanã lotado é a coroação de um esforço de horas, dias, anos de muito treino e dedicação.

Para a maioria daquelas pessoas, o esporte entra em suas vidas muito cedo. Com uma mistura de talento e dedicação exaustiva, ele vai tomando espaço em suas vidas, e na maioria das vezes, ao entrar na adolescência, transforma-se em trabalho, com contratos assinados por seus responsáveis com patrocinadores e clubes.

Em várias modalidades assistimos medalhistas com menos de 18 anos.

Ao fazer a escolha por esse caminho, no qual decisões muito sérias são feitas e, em alguns casos, a desistência da educação formal, que poderia proporcionar a esses jovens outros caminhos no futuro, é uma delas. Afinal, são em média 10 horas de treino diários aos 12, 13, 15 anos, o que equivale a uma jornada de trabalho.

Quanto tempo pode durar a carreira desses atletas? O esforço físico exigido é tão grande, que muito precocemente alguns são “aposentados” por lesões, sem antes mesmo chegarem ao seu auge.

Gustavo Kuerten (43 anos) e Pelé (79 anos), por exemplo,entenderam muito cedo que o auge de suas carreiras não era garantia suficiente para manter sua autoestima e o reconhecimento público dos personagens que se tornaram.

Bauman, em seu livro Identidade, afirma que: “Tornamo-nos conscientes de que o “pertencimento” e a “identidade” não tem a solidez de uma rocha, não são garantidas para toda vida, são bastante negociáveis e revogáveis, e de que as decisões que o próprio indivíduo toma, os caminhos que percorre, a maneira como age – e a determinação de se manter firme a tudo isso – são fatores cruciais tanto para o “pertencimento” quanto para a “identidade”.

Talvez, com a clareza do real significado de suas conquistas, tiveram a humildade e inteligência de se reinventarem para as outras fases de suas vidas e não se deixaram iludir pelo “personagem”, que cada um se tornou.

Traçando um paralelo da realidade do esporte para a do trabalho, principalmente àquela ligada ao mundo corporativo, o que vejo quando desenvolvo o tema do Pós-carreira – transição para eventual aposentadoria – é que, quanto mais alto o nível hierárquico ocupado pelo indivíduo e sua respectiva representatividade social, maior o conjunto de dificuldades em lidar com essa mudança de “status” e poder.

As grandes corporações transformam seus altos executivos em “personagens importantes”, propiciando-lhes, de forma transitória, uma série de símbolos que alimentam vaidades e admiração. E com isso cria-se uma perigosa mistura entre o que é sua competência e aquilo que a organização lhe “empresta” de forma temporária. Ou seja, um sobrenome corporativo que faz surgir um personagem, muitas vezes desvinculado da figura individual.

É importante refletirmos sobre quem somos e nossos projetos durante todo o percurso de nossas vidas. Afinal, como dizia o moralista francês Duque de La Rochefoucauld, em uma de suas máximas, “Existem poucas coisas que nós desejaríamos de forma intensa se nós soubéssemos realmente o que queremos.” 

Sobre a autora:

Denise Mazzaferro

Denise Mazzaferro é mestre em gerontologia, sócia da Angatu IDH, membra do Conselho do OLHE (Observatório da Longevidade Humana e Envelhecimento) e autora do livro “Longevidade – Os desafios e as oportunidades de se reinventar”.

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