Aprendizado

Ao encarar o tabu da morte, nos rejuvenescemos

por Sérgio Serapião
3 de março de 2020

Como lidamos com o tema da morte? Esse assunto pode ser visto de forma diferente em diferente culturas

Foto: Aron Visuals – Unsplash

A maneira com que lidamos com a morte e o luto está muito associada à nossa cultura. Cada cultura lida de forma particular com os ritos de nascimento, de casamento e de passagem.

No México, por exemplo, o dia dos mortos é celebrado em uma festa de origem pré-hispânica. O evento honra os antepassados e celebra a vida dos ancestrais, com comidas típicas e os pratos favoritos dos falecidos.

À primeira vista, as pessoas podem estranhar a celebração da morte com doces em formato de caveira.

No entanto, se nos conectarmos a diferentes linhas espirituais, como o espiritismo, as quais acreditam numa vida após a morte, a passagem seria apenas um ritual de desenvolvimento, de avanço espiritual. Em outras palavras, a morte pode ser algo a se celebrar.

Ken Wilber, um filósofo americano, estudioso de várias culturas e religiões, consolidou o que seria a síntese de todas as culturas e linhas de ciência, num livro chamado “A teoria de tudo”, o qual aborda a evolução espiritual humana. Em sua teoria integral, Wilber desassocia o desenvolvimento de nosso corpo espiritual de nosso corpo material, este atrelado a uma identidade passageira.

Se todos concordássemos que a morte não é o fim, mas apenas uma passagem para um novo ciclo de desenvolvimento, será que  lidaríamos melhor com ela?

Talvez um dos elementos mais difíceis seja nos desprendermos ou desapegarmos da figura material desse nosso(a) ente querido(a), nosso pai, mãe, avó ou familiar que nos deixa. O rabino americano Zalman Schachter Shalomi escreveu o livro “Mais velhos, mais sábios”, após vivenciar o seu próprio processo de envelhecimento e sentir-se despreparado para morrer.

No livro, desenvolveu vários exercícios de reflexão sobre legado, família e amigos, com o intuito de praticarmos o desapego e vivenciarmos a possibilidade concreta de que a morte chega. Perguntas como: Qual legado gostaria de deixar depois que partir? Como gostaria que sua cerimônia de partida fosse realizada? São temas que evitamos, mas que ao nos colocarmos diante deles, tiramos o tabu, o medo desaparece ou diminui, e energia para a vida é liberada! 

Atualmente, multiplicadores se distribuem mundo afora, desenvolvendo círculos de apoio “Mais Velhos Mais sábios”, baseados nos ensinamentos do livro. Praticantes relatam o quanto é libertadora a prática dos exercícios. Quanto mais se encara a morte com naturalidade, mais vida e segurança emana entre os participantes.

De forma similar, outros grupos se multiplicam para tratarem do tema da morte e da finitude de forma mais natural, usando elementos culturais como cinema e livros para deixar mais leve a abordagem. Iniciativas internacionais, como Death Cafes (cafés da morte), sessões de cinema em cemitérios e o mais recente Festival Infinito, são alguns exemplos dessas ações que têm se propagado Brasil e mundo afora, e que podem nos inspirar a viver mais naturalmente a nossa morte.

Gostou do assunto e quer ainda mais referências? Leia também o livro (ou veja o talk)  “A morte, um dia que vale a pena viver” da médica e autora Ana Claudia Quintana Arantes.

Sobre o autor:

Sérgio Serapião

Empreendedor social, fellow Ashoka, atua há +14 anos com longevidade, cofundador e diretor da Labora, 1a startup de RH (HRtec) voltada para integrar talentos seniores a profissões do futuro, solucionando desafios de empresas e sociedade. Fundador do Movimento LAB60+, laboratório social colaborativo que busca soluções práticas para a co-construção de um mundo mais longevo. Membro do conselho do Sistema B Brasil.

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